sexta-feira, 29 de julho de 2011

não interessa



o meu sorriso faz um parêntesis.

tudo o que sai da minha boca são apartes. tudo o que fica por dizer é o que realmente interessa.

a língua não sabe articular o essencial, deixa-se seduzir pelos artifícios dos lábios... que só querem sorrir, que só querem 'fazer parêntesis'.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

leve



são pedras. são pedras que me crescem por dentro. sinto o peso que a balança não acusa, o peso que embaraça o caminhar, como um saco quase a rasgar de tanta carga. são pedras que roubam o lugar umas às outras, numa disputa pelo espaço que faz esticar a pele à semelhança de uma barriga de grávida. são pedras que não páram de crescer e de se multiplicar, como os pães na mão do profeta.

tenho de vomitar estas pedras, ou elas transformar-me-ão numa rocha. quero ser dúctil, ligeira, experimentar o lado positivo da leveza. quero sentir a Insustentável Leveza do Ser.

terça-feira, 28 de junho de 2011

sexo




o meu cérebro é uma vagina onde penetra profundamente a ideia SONHO. perdeu a virgindade com a ideia LIVRO, mas permanece fiel à ideia ÁGUA. a ideia LARANJA é mais ao Domingo, dia amargo, ainda assim, não satisfaz tanto como a ideia PORTA, que nele investe com a regularidade que bem entende.
há dias teve um orgasmo com a ideia LIBERDADE. Pode ser que ela aceite ser sua amante por tempo indeterminado.



Que mente prostituta.



tive um sonho em que boiava sobre a água com um livro numa mão e uma laranja na outra. essa água corria para uma porta que abria e fechava ao sabor da corrente autoritária que a forçava. do outro lado encontrei algo que me pareceu um reflexo de liberdade, no espelho que a água proporcionava. ela fugia e voltava, aos risinhos. enquanto isso a água inundava a interioridade do meu corpo, fazia sexo comigo, como uma ideia que nos consome e faz tremer. entrava pela vagina e, na sua fluidez, envolvia a alma. afoguei-me e senti a liberdade.



com um livro na mão e uma laranja na outra.



Que mente prostituta.








recomendação: sexo seguro com as ideias. mas não caia no erro de usar o preservativo da marca amor, porque tem tendência a romper no momento mais crítico.

domingo, 5 de junho de 2011

delirious eye






'I have been happy, tho' in a dream.
I have been happy- and I love the theme:
Dreams! in their vivid coloring of life,
As in that fleeting, shadowy, misty strife
Of semblance with reality, which brings
To the delirious eye, more lovely things
Of Paradise and Love
- and all our own!
Than young Hope in his sunniest hour hath known.'



(Edgar Allan Poe)




posso ficar aqui, onde tudo e nada acontece? onde a retina delira e o coração transborda?








quarta-feira, 1 de junho de 2011

o nada que mata




se calhar não fiz.

se calhar não disse.

se calhar não mostrei.

se calhar não soltei.

se calhar não vivi.
se calhar entorpeci.

se calhar calei.

se calhar reprimi.

se calhar guardei.
se calhar escondi.

se calhar fingi.
se calhar sufoquei.
se calhar matei.




fechei a porta. a chave está do lado de fora.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

diário de um (auto)convencimento



foge. inverte a marcha, não vás por aí. foge. não insistas com a chave na fechadura errada. foge. deixa de ver “com” onde está “sem”. foge. não te prendas no que poderia ser. foge. dá ordens ao teu corpo para agir. foge. pára com essa treta da psicologia. foge. não sossegues o espírito com uma garantia. foge. anula o pensamento. foge. silencia o grito impaciente. foge. droga a vontade. foge. nada te prende, nem mesmo a tua afecção cega.


à desordem que te quer dominar responde com a disciplina da fuga.


entrega aos pés essa demanda, e não deixes que a cabeça interfira. esquece tudo o que já existia sem ter existido.
vai.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

pausa



o tempo são passos. ouço passos na minha cabeça. passos urgentes que aceleram à medida que o labor das ideias aumenta.
o tempo não foge nem voa, ele circula na sua flânerie dentro de mim. está aqui. olá tempo. deixa-me em paz. podes sentar-te um pouco. a caminhada ainda é longa (espero eu); tem calma.
ofereço-me à pausa do tempo (ou é antes ele que me dá o benefício dessa pausa). os objectos estão todos a olhar para mim na sua estupidez máxima. sinto-me superior à minha caneta.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 …


o tempo parou dez segundos, que pressa que ele tem. já ouço novamente os passos familiares da sua promenade. já posso dormir descansada, porque hoje vou sonhar. tenho a certeza. os seus passos trabalham para a dimensão do incosciente…




acho que já estou a dormir.