domingo, 17 de maio de 2015

portraits, dreams and bad dreams


«Where I come from nobody knows and where I am going everything goes. The wind blows, the sea flows, nobody knows. And where I am going, nobody knows.»
[Portrait of Jennie (1948), William Dieterle]










Dragonwick (1946), Joseph L. Mankiewicz
Rebecca (1940), Alfred Hitchcock
The Woman in the Window (1944), Fritz Lang
Portrait of Jennie (1948), William Dieterle
Laura (1944), Otto Preminger
Vertigo (1958), Alfred Hitchcock

sábado, 25 de abril de 2015

dia de (e da) Liberdade

entre Alexandre Nevsky, na composição musical de Sergei Prokofiev, uma conversa acerca de música e cinema, um tributo a Nino Rota, pelo Quinteto de Richard Galliano, e leituras picadas sobre Orson Welles, este 25 de abril foi de uma liberdade sem limites: para os ouvidos, para o espírito, para a mente. a certa altura, no andamento das páginas do livro de Orson Welles, num capítulo que fixa textos seus, lê-se «Não há arte domesticada» – e tudo faz sentido de repente. experimentei, de modo particular, essa liberdade quando o Quinteto de Richard Galliano se configurou numa espécie humana de Aristogatos, interpretando Nino Rota como quem sobe aos telhados para dar ao luar um sentido renovado. o clarinetista não conseguia conter os seus tiques de pernas (com um gesto idêntico ao do cão a “sujar” as rodas dos carros), dizendo nesses tiques, implicitamente, “sou tão feliz por tocar clarinete”... e todos os outros consumavam a alegria em bloco, que é, aliás, característica própria da música de Rota. mas também houve melancolia, porque os telhados hoje estão molhados e não há luar. estes Aristogatos, com toda a sua desfaçatez vadia, trouxeram a lua para dentro de uma sala, e o mar para o interior de um acordeão.



quinta-feira, 2 de abril de 2015

Manoel (1908-2015)

disse Michel Piccoli, em 2007: «[Manoel de Oliveira] é um grande farsante. E tem uma elegância, uma sabedoria de viver que é muito secreta. Ele nunca fala dele próprio. Gosta de contar histórias.» lendo isto, nada me ocorre de mais elegante, secreto e farsante do que o vermelho desta(s) rosa(s) do Vale Abraão. que fantasia tão sagrada e profana nesta cor. que morte tão imaginária, a de Manoel de Oliveira, entre o profano dia das mentiras e a sagrada Sexta-feira da Paixão de Cristo. caminhará ele agora nesse Mistério, como fazia com José Régio, descodificando plano a plano A Regra do Jogo de Renoir? dá-nos um sorriso, conjecturar.




quinta-feira, 19 de março de 2015

Encontro


Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madrugada
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.


(in Claro Enigma, Carlos Drummond de Andrade)



sonho sempre que ele vive, desde que mudou de morada, num vale imensamente verde.


















How Green Was My Valey (1941), John Ford

domingo, 15 de março de 2015

home

(The Birth of a Nation, D. W. Griffith)



Mid pleasures and palaces though we may roam,
Be it ever so humble, there's no place like home;
A charm from the skies seems to hallow us there,
Which seek thro' the world, is ne'er met elsewhere.
Home! Home!
Sweet, sweet home!
There's no place like home
There's no place like home!


letra: John Howard Payne (1823)
música: Henry Bishop


sábado, 7 de março de 2015

o som dos Maltesers a derreter no palato ou a ciência de um prazer


aconchego um Malteser
entre o pico da concavidade do céu
da boca (perdão – do céu palatino)
e da língua mole.
para não acelerar o processo
de erosão enzimática,
suspendo o movimento
do maxilar.
pausa.
um crepúsculo de
chocolate derrete como
a cera das velas fundidas
numa superfície plana, converte-se num
manto de sabor, e desse quase
nada procede o ruído
da morte esfumada da bolacha
de dentro – sulcada que
nem um queijo suíço –,
comovida
pelo regozijo desta
boca triste (será o ruído
do pavio a dissipar-se?).
quero mais um Malteser
e outro
e outro...
o pacote inteiro.
porque, já dizia Márai,
as velas ardem até ao fim.
e eu não sei escrever
poesia. por isso, escuto o som
dos Maltesers a derreter
no palato.
















The Golden Rush (1925), Charles Chaplin

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

"I'm Nobody! Who are You?"


I'm nobody! Who are you?
Are you nobody, too?
Then there's a pair of us -don't tell!
They'd banish us, you know.

How dreary to be somebody!
How public, like a frog
To tell your name the livelong day
To an admiring bog!



Emily Dickinson




La petite marchande d'allumettes (1928), J. Renoir