terça-feira, 14 de agosto de 2012

a sós

em público, cumprimos o pensamento de Saint-Exupéry que diz que "amar é olhar juntos na mesma direção", assistimos ao espetáculo da vida, lado a lado. na intimidade, despidos dos adereços, olhamo-nos, simplesmente, na timidez do confronto das pupilas que se adoram.


(Imagem: Elena et Les Hommes, Jean Renoir)

sábado, 11 de agosto de 2012

areia

enterro a mão na areia, até à profunda camada em que ela reserva a água. penso na fome da superfície, que devora a espuma das ondas, assim que elas se apartam para retomar o seu movimento natural. somos tão parecidos com a areia, famintos de pele, reservadores de sentimentos. há humidade dentro de nós. somos grutas com estalactites de desejo, submundos de uma superfície normalizada, como a areia lisa depois da onda. olho para o céu e sinto uma espécie de trindade do ser: o infinito, o corpo, e o coração, esse que toco, húmido e moldável, através da mão enterrada na areia. com a cabeça nas alturas e uma mão nas profundezas, encontro o  ponto sísmico das memórias do meu tacto.




terça-feira, 7 de agosto de 2012

quando

algo se expressa por quantos poros tem a pele. uma prega de sorriso nos olhos, a testa esticada de contentamento, os lábios - qual fatia de melão fresca -, em frémitos de alegria, as mãos, pura reprodução do gesto infantil, procuram-se uma à outra, na efervescência da expectativa… uma surpresa. alguém chegou. bateram à porta.
entretanto, já todo um processo químico reformulou a fisionomia e adocicou a saliva.
vai abrir.
(tinha saudades tuas)


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

olha a luz


se passares por um lugar que intuas que um dia será nosso, deixa a marca do futuro, sente a luz que a bem-fada; ela - a marca - permanecerá até ao amanhecer desse dia, e cumpriremos o prazo inscrito na nuvem do tempo. não será o único lugar, e o mais importante, como nas fotografias, é a luz. há lugares que chamam significados longínquos, tecidos pela primeira passagem de um dos dois, lugares que nos conhecem pelos passos, pelos sentimentos que transportamos na planta do pé. é que somos amor da cabeça aos pés, iluminados a partir do interior, e isso até as pedras da calçada podem reconhecer. vejo-te nesse lugar, a imaginar como será, já que não pode ser agora. deito a cabeça sobre a almofada da fantasia e voo até aí. ainda que nunca se concretize, foi bom estar contigo nesse lugar, respirarmos juntos o mesmo momento e recebermos a mesma luz oblíqua de um sol cansado mas feliz de olhar para nós, fórmula ímpar.


quinta-feira, 26 de julho de 2012

mão

a mão do sonho percorria o seu corpo, como se conferisse a forma da matéria sedosa; a mão real pendia da cama, como sintoma da entrega total ao estado letárgico. a mão do sonho era meiga, feliz no toque e portadora de um sentimento que se expressava na ponta dos dedos; a mão real tinha pequenos espasmos de prazer, durante o sono. a mão do sonho encontrara o seu abrigo; a mão real contraiu, agarrando-se veemente ao lençol. a mão do sonho transpusera a fronteira. essa.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

os primeiros

naquele tempo em que as existências ainda não povoavam a terra. naquele tempo em que o eco reinava. naquele tempo em que o tudo era nada. naquele tempo da combustão do vazio. naquele tempo que chamava outro, o próximo. naquele tempo, surgiram as nossas peles. nasceu a comunicação. 1+1=2


domingo, 1 de julho de 2012

fim de tarde

o nascimento da noite desenha-se aos olhos que se entregam à contemplação. é sábio esse lápis que faz das trevas uma imagem iluminada. o horizonte vai adquirindo um sfumato intenso e gradual, à medida da declinação do sol cansado. as nuvens perdem o seu aspeto fofo, para assumirem a forma de uma linha reta do fumo de um cigarro científico. a linha que emana do meu cigarro é sentimental, é uma serpente fantasma que se mistura com o ar, perdendo-se na brisa deste fim de tarde. é belo o anoitecer, e cheio de luz, uma luz interior que afasta as trevas. sou alimentada dessa luz. acabei a minha tela; ela guarda em si o tempo: era dia, agora é noite. do silêncio da minha casa observo a janela em frente, que anuncia o acender automático de uma lâmpada. é tão mais sublime o movimento natural das coisas. essa lâmpada, não pude eu  desenhar o seu acender; a velocidade do tempo ganhou à minha destreza de o captar numa composição pictórica.
a natureza demora-se. é uma mulher.
lá está ela, a Lua, recortada por mim. luz entre as trevas.