segunda-feira, 15 de outubro de 2012

frio


estão quase a chegar os dias com as melhores manhãs. o cinzento a entrar pela frecha das portadas, a anunciar o frio que está lá fora. a chávena de cappuccino a fumegar entre as mãos que a seguram, como a primeira prenda do dia. tenho os pés inquietos, dentro das meias felpudas. vão andar muito pela cidade, vão à procura, vão ao encontro, vão apressados, vão por eles próprios. os meus pés já conhecem os caminhos dos dias, têm o mapa da rotina nos calcanhares. quem me dera saber assobiar, para quebrar a rotina. estão quase a chegar os dias que pedem casacos quentes - além do cappuccino. hoje já pus mais uma manta na cama. amanhã acabo o livro que estou a ler, está demasiado conotado com os dias de calor. talvez aquele peluche também não esteja bem ali... podes chegar frio, estou quase pronta.
(descalça: já pede meias.)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

o medo


Disse ao céu: tenho medo
O céu respondeu com um azul imperturbável
Pedi à nuvem: diz ao céu que tenho medo
A nuvem desenhou uma indiferença fofa
Vi um pássaro voar e gritei: diz à nuvem que diga ao céu que tenho medo
O pássaro bateu asas com a languidez escrita nas penas
No desamparo da natureza encontrei a força
Não posso ter medo se ela não o conhece
Disse ao céu: és azul
Ele pediu à nuvem que chamasse o pássaro para me trazer a mensagem:
Sou azul e não sei o que é o medo
Qual é a sua cor?
 

sábado, 29 de setembro de 2012

Poema


Tú eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio.
Tú haces de mi vida
esta ceremonia demasiado pura.



Pizarnik


 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

máquina inteligente


ei-la sentada no intervalo do que gostaria de sentir e do que sente. um mal-estar por não saber algemar as emoções ruins, uma falha na máquina geradora das lágrimas (que só deveria ser acionada em caso de emergência). não é uma máquina inteligente. por isso, ela baloiça - como que a pedir ao vento para secar as emoções estranhas.
caiu uma folha seca da árvore. será o outono?
 

sábado, 8 de setembro de 2012

telhados


abandono a leitura do livro. fecho-o com a lentidão de quem ainda vigia a compreensão exata da última frase. o sol desmaia sobre o rio, e eu, sobre os telhados de Lisboa repouso o olhar, como se esse olhar fosse um corpo fatigado, que se estende ao comprido numa cama de telhas. o tempo escreveu mais uma preciosa página na minha vida, um dia que termina assim, comigo a olhar para o laranja velho dos telhados. sinto-me um postal daqueles que abundam nas mal-amanhadas montras das lojas de souvenirs. envio-me para um endereço incógnito, esperando o toque de umas mãos que abram o envelope e o tomem ansiosamente para ler a mensagem. o postal não leva nada escrito, é o silêncio de uma imagem onde figuro eu a repousar o olhar sobre os telhados de Lisboa. a verdadeira fotografia está, contudo, na minha íris, que apenas é apanhada de perfil.  sou feliz. guardo a imagem do meu descanso na memória de outra imagem. penso em retomar a leitura do livro. sim, é o melhor que faço.
(está um gato no telhado.)
 
 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.



Sophia de Mello Breyner Andresen

(The Big Parade, King Vidor)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

espelho

olho-me ao espelho, porque tenho medo de perder a memória da minha cara, tenho medo de não me reconhecer. o tempo que passa e amadurece os traços, é o mesmo tempo que quer descaracterizar. o espelho é a crença numa visão, não uma visão crível só por si. o espelho apazigua, mas por vezes mente ou exagera. estou tranquila por verificar, no exame quotidiano, que não mudei muito, que algo infantil permanece no parêntesis do meu sorriso, contudo, há um excesso de idade no meu olhar, não nos olhos, mas no olhar. olho como quem vê o que foi e o que será, como quem carrega o tempo na íris. reconheço-me no que fui e no que serei, porque a mentira do espelho é a verdade interior. somos a constância e a mudança, num só corpo.
 

(Je vous salue Marie, Godard)