quarta-feira, 30 de outubro de 2013

un étrange voyage

comboios. adoro comboios nos filmes! hoje tive o gosto de conhecer mais um (filme) - Un Étrange Voyage – com esse, chamemos-lhe, acessório temático. mas o percurso fazemo-lo a pé, ao lado de Pierre, tal como a sua filha Amélie,  ao longo da linha de caminhos de ferro que liga Troyes a Paris, que é como quem diz, um percurso a pé dentro de nós mesmos, detetives da interioridade. o cinema permite-nos isso: transportar os movimentos (e, neste caso, o movimento aparente) na tela para dentro de nós. todos procuramos algo, mesmo que não seja a maman do “pequeno” Pierre ou a Miss Froy do filme The Lady Vanishes (Hitchcock). todos procuramos, além de pessoas, coisas, sentidos, “a melhor maneira”... Pierre não encontrou a mãe*, mas encontrou-se com a filha. e quanto a nós, todos nos procuramos através da procura do outro. é tão simples quanto verdadeiro. mas insisto: o comboio é o mais belo símbolo da viagem.
(reservo-me ao direito de expressar apenas este aforismo sobre o filme. há muito mais. muito mais a dizer. sempre.)


vou montar carris à volta do coração.


*(ver o filme)

Un Étrange Voyage (1980), Alain Cavalier 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

(talvez) num filme de Ozu

faço parte da ordem e nudez dos espaços arrumados. sou a jarra sem flores a ornar um móvel liso. não posso ser mais do que essa jarra branca.
sem flores. 
branca.



sábado, 19 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes

Cem anos após o nascimento de Vinicius de Moraes, recordo-o com um poema sobre a cerimónia da morte:


A HORA ÍNTIMA

Quem pagará o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores? 
Quem, dentre amigos, tão amigo 
Para estar no caixão comigo? 
Quem, em meio ao funeral 
Dirá de mim: - Nunca fez mal... 
Quem, bêbedo, chorará em voz alta 
De não me ter trazido nada? 
Quem virá despetalar pétalas 
No meu túmulo de poeta? 
Quem jogará timidamente 
Na terra um grão de semente? 
Quem elevará o olhar covarde 
Até a estrela da tarde? 
Quem me dirá palavras mágicas 
Capazes de empalidecer o mármore? 
Quem, oculta em véus escuros 
Se crucificará nos muros? 
Quem, macerada de desgosto 
Sorrirá: - Rei morto, rei posto... 
Quantas, debruçadas sobre o báratro 
Sentirão as dores do parto? 
Qual a que, branca de receio 
Tocará o botão do seio? 
Quem, louca, se jogará de bruços 
A soluçar tantos soluços 
Que há de despertar receios? 
Quantos, os maxilares contraídos 
O sangue a pulsar nas cicatrizes 
Dirão: - Foi um doido amigo... 
Quem, criança, olhando a terra 
Ao ver movimentar-se um verme 
Observará um ar de critério? 
Quem, em circunstância oficial 
Há de propor meu pedestal? 
Quais os que, vindos da montanha 
Terão circunspecção tamanha 
Que eu hei de rir branco de cal? 
Qual a que, o rosto sulcado de vento 
Lançará um punhado de sal 
Na minha cova de cimento? 
Quem cantará canções de amigo 
No dia do meu funeral? 
Qual a que não estará presente 
Por motivo circunstancial? 
Quem cravará no seio duro 
Uma lâmina enferrujada? 
Quem, em seu verbo inconsútil 
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda. 
Qual o amigo que a sós consigo 
Pensará: - Não há de ser nada... 
Quem será a estranha figura 
A um tronco de árvore encostada 
Com um olhar frio e um ar de dúvida? 
Quem se abraçará comigo 
Que terá de ser arrancada? 

Quem vai pagar o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

leitor

'«Lê-nos um poema.»
 Tu lias e, para nós, eram ensinamentos sobre o mundo, que não nos vinham do poeta, mas sim da tua sabedoria. E os infortúnios dos amantes e os choros das rainhas tornavam-se grandes coisas tranquilas. Morria-se de amor com tanta calma, na tua voz...'

Correio do Sul, Saint-Exupéry

'On aime une histoire parce qu’on aime le conteur. La même histoire, contée par un autre, n’offre aucun intérêt.'

Ma Vie et Mes Films, Jean Renoir


(imagem: Bright Star, Jane Campion)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Carta ao Espírito


Querido Jean, hoje foi um dia tramado, antes de acontecer. Depois aconteceu e eu fiquei com um hematoma de felicidade no peito. Uma espécie de scarlet letter que, em vez de simbolizar a dor, expressa o júbilo interior. Eu sei que tu gostas que isto seja só cá entre nós, mas precisava de uma carta aberta para dizer aquilo que muitos te disseram, e ao qual a Ingrid Bergman ofereceu um brilho nos olhos e um sorriso nas palavras: “we love you, Jean”.
Já ouço a tua gargalhada, daí desse lugar, onde o eco se multiplica em ondas sonoras do teu humanismo.  

Até sempre,
até já.



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

chamada livre

- olá. liguei para falar de cinema.
- em que filme deixaste hoje o coração?
- num que não fala de amor.
- e esse filme existe?
- as pessoas vêem sempre amor em tudo, por isso já não sabem distinguir as linguagens. se um filme fala do vento, logo vem a tese de que o vento aproxima os amantes. o vento é o vento, e a sua matéria é tão ou mais complexa que o amor.
- e tu, vais à procura do quê no cinema?

- de mim.



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

hábitos adquiridos

já não bebo vodka nem leio Virginia Woolf. deixei de lavar a chávena de café: gosto de ver a linha da porção ingerida. já não acordo a meio da noite para vigiar se o peluche da cama caiu ao chão. desisti de regar a planta: a sua morte está anunciada. já não falo com gatos nem me sento no telhado. amanhã torno à leitura de Virginia Woolf (cedência exclusiva) mas não volto a beber vodka, a lavar a chávena de café, a acordar a meio da noite, a regar a planta, a falar com gatos ou sentar-me no telhado. bem… só falar com gatos. o resto mantém-se.