quarta-feira, 13 de abril de 2016

aromas

a salsa, os coentros, o manjericão e o cebolinho. já começaram a aparecer os tímidos rebentos, uns com mais pressa do que os outros. li algures que os coentros crescem rápido – estou a verificá-lo agora – e que o manjericão é a excelência da preguiça. confere. estas plantas aromáticas, estes pequenos nadas semeados nuns vasinhos ao canto da minha janela, são o regozijo da velhinha que há em mim. na correria dos dias, gosto de afagar com o dedo indicador a terra desses vasos pequenos, a terra que borrifo com água para ver irromper o verde. às vezes esqueço-me que plantei salsa, coentros, manjericão e cebolinho para realçar os cozinhados. no fundo, acho que só os plantei para os ver crescer (devia deixar uma câmara a registar o mistério do crescimento…). não sei porque escrevo sobre salsa, coentros, manjericão e cebolinho, mas deu-me algum gozo, por momentos, deslocar o pensamento para esta paisagem simples, ao canto da minha janela. devaneios femininos? futilidade deliciosa. 


The Women (1939), George Cukor

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Harper Lee (1926-2016)

«O tema do meu vestuário era uma verdadeira obsessão para a tia Alexandra. Nunca mais me tornaria numa senhora se usasse calções; quando eu lhe disse que para mim um vestido não tinha utilidade nenhuma, ela respondeu-me que não era suposto eu andar a fazer coisas que exigissem um par de calças. A visão da tia Alexandra sobre o meu comportamento envolvia brincar com pequenos fogões, serviços de chá e usar o colar de pérolas que ela me tinha dado quando eu nasci; além disso, eu devia era ser um raio de Sol na solitária vida do meu pai. Eu lembrei-me de que também se pode ser um raio de Sol com calças, mas a tia contra-argumentou  que tínhamos de nos comportar como um raio solar, que eu nascera boazinha, mas que cada ano que passava estava pior. Magoava-me constantemente e deixava-me os nervos em franja, mas quando contei tudo ao Atticus, ele sossegou-me, dizendo que já havia raios de Sol que chegassem na família e para eu continuar a viver a minha vida, que ele não se incomodava muito com a minha maneira de ser.»

Harper Lee

Mataram a Cotovia, Harper Lee
(trad. Fernando Ferreira-Alves)



To Kill a Mockingbird (1962), Robert Mulligan

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

I want to know everything in the world

Librarian: Burton's "Anatomy of Melancholy"? Are you sure you want this?
Francie: Yes, ma'am.
Librarian: Don't you think is a trifle over your head?
Francie: Yes, ma'am.
Librarian: Then why did you select it?
Francie: Well, l've read all the authors beginning with "A", and all the "Bs" down to Burton. It’s next.
Librarian: You mean you're trying to read your way straight through the library?
Francie: Yes, ma'am.
Librarian: But, a book like this, you'll only be confused.
Francie: Please, l want to read clear through the alphabet. l want to know everything in the world.




A Tree Grows in Brooklyn (1945), Elia Kazan

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

receita de ano novo

The Apartment (1960), Billy Wilder
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Estrela de Natal


Na estação fria, num lugar onde soe mais a quentura
que a friagem, e mais a planura que a altura,
nasceu para salvar o mundo um Menino na caverna;
o vento soprava como só no deserto quando inverna.

Para Ele, tudo parecia enorme: o seio da Mãe, o vapor
amarelo nas ventas do boi, os Reis Magos – Gaspar, Melchior,
Baltazar – mais os presentes, arrastando-se desde a porta, à espera.
Ele era apenas um ponto. E um ponto era também a estrela.

Atentamente, sem pestanejar, por entre raros fiapos de nuvens,
posto no Menino nas palhinhas deitado, de muito além,
do fundo das profundezas do Universo, o olhar
da estrela estava posto na caverna. E era o do Pai aquele olhar.

(24 de Dezembro de 1987)
Paisagem com inundação, de Iosif Brodskii
(Tradução de Carlos Leite)


A Matter of Life and Death (1946), Michael Powell e Emeric Pressburger

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

janelas

gosto de olhar as janelas dos prédios ao fim da tarde, no caminho para casa, e assistir à cerimónia das primeiras luzes a surgir no interior das casas. a treva ainda não desceu, e esta indecisão entre o dia e a noite dá-me a tranquilidade do ainda e a violência do já. penso nas Noites Brancas de Dostoievski e de Visconti, como se o desplante de suspender a visão sobre as janelas dos outros tivesse qualquer coisa de romântico. ando a ler Sherlock Holmes, mas também não é o espírito detetivesco que me organiza os impulsos. queria apenas ficar assim, a olhar as janelas iluminadas dos prédios, para lá de qualquer literatura.


Le notti bianche (1957), Luchino Visconti

sexta-feira, 28 de agosto de 2015