Em frente dele está sentado o X-123, um velho magro condenado a vinte anos de trabalhos forçados. Está a comer papas.
- Não, meu caro - dizia Tsézar suavemente -, a objectividade obriga a reconhecer que Eisenstein é genial. Pois Ivan, o Terrível não é genial? A dança dos guardas mascarados! A cena na catedral!
- Afectações! - zanga-se o X-123, parando a colher a caminho da boca. - Tanto artifício que até já deixa de ser arte. Especiarias em vez do pão de cada dia! Além disso, a ideia política é ignóbil: justificação da tirania pessoal. Escárnio sobre a memória de três gerações da intelligentsia russa! (Come as papas com a boca insensível, não lhe fará proveito.)
- Mas que outra interpretação lhe permitiriam?...
- Ah, permitiriam? Então não digam que é um génio! Digam que é um bajulador, que satisfez uma encomenda canina. Os génios não ajustam a sua interpretação ao gosto dos tiranos!
- Hum, hum - tossiu Chúkhov, constrangido por interromper uma conversa erudita. E também não tinha motivo para ficar ali especado.
Tsézar voltou-se, estendeu a mão para a tigela das papas; nem sequer olhou para Chúkhov, como se as papas caíssem do ar, e voltou ao seu tema:
- Mas ouça, a arte não é o quê, mas o como.
O X-123 abateu o punho sobre a mesa.
- Para o diabo com o vosso «como» se não desperta em mim bons sentimentos!»
Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch, Aleksandr Soljenítsin
o velho conflito entre o conteúdo e a forma.
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