terça-feira, 23 de abril de 2013

livro(s)




esses mundos portáteis chamados Livro

terça-feira, 9 de abril de 2013

suspensão





tudo está parado, desde que saíste.
amo-te.

domingo, 7 de abril de 2013

voz


quando lês para mim, aumentando, com vagar, o volume das palavras silenciosas no papel, é como se mais nenhuma voz pudesse cumprir esse momento. ouvir-te é acreditar em todas as deliciosas mentiras que carregas ternamente no timbre. tenho vontade de invocar o infinito, adormecer no berço tecido em promessas que trazes pela voz. são tuas essas palavras que lês, não podem ser de mais ninguém. és o autor. só tu as lês assim, para mim.



quinta-feira, 4 de abril de 2013

(sem título)


há uma altura em que as nossas razões emocionais se tornam razões políticas. há uma altura em que a nossa dor individual é, na verdade, uma dor coletiva. se mal suportamos aquilo que nos fere pessoalmente, como podemos resistir a toda a dor de um país? quais os limites da dor política? somos amados ou rejeitados? o amor social é tão antigo como a necessidade de comer.



quinta-feira, 28 de março de 2013

amor pela literatura

«(...) padecia de amor pela literatura. (...) Era da índole fatal desta doença substituir a realidade por um fantasma, de forma que Orlando, a quem a fortuna concedera todos os dons - pratas, roupa de cama e mesa, casas, criados, tapetes, camas em abundância - dissipava em névoa, com o simples gesto de abrir um livro, toda esta imensa acumulação. os nove acres de pedra que eram a sua casa desapareciam; desapareciam os cento e cinquenta criados de dentro; os seus oitenta cavalos de sela tornavam-se invisíveis; e levaríamos demasiado tempo a contar os tapetes, sofás, adornos, porcelanas, salvas, galhetas, rescaldeiros e outros bens móveis, muitos dos quais de ouro lavrado, que se evaporavam como um sopro de brisa marinha ao contacto com o miasma. Assim acontecia, e Orlando, sentado sozinho a ler, era um homem nu.»

Orlando, Virgínia Woolf



domingo, 17 de março de 2013

Le ballon rouge




quero um balão vermelho e viajar para o sul da imaginação, onde as ideias são mais quentes e há uma beira-mar de possibilidades.


imagens:  Le ballon rouge, Lamorisse (1956)

segunda-feira, 4 de março de 2013

o sabor do sono


tento adormecer, coberta pelo calor do manto da escuridão, uma flanela macia que se encosta ao ombro e roça na cara, para provar que todo o corpo está resguardado. durmo em posição fetal, mas hoje não durmo. um fio de luz invade o desnível entre as portadas velhas da janela, cuja madeira tomou a irregularidade do tempo e do uso. é a luz dos candeeiros da rua, que observam a monotonia e o descanso das pedras da calçada, humedecidas pelo orvalho. penso no gato que se esconde atrás do caixote do lixo, no frio do abandono. ouço os meus pensamentos, sem os verbalizar. conto os nomes das personagens dos filmes que vi hoje: Clive, Barbara, Lambert, Armstrong, Vera, Blore, Owen… e do fluxo aleatório de pensamentos, passo para os sentidos. saboreio os morangos que vou comer amanhã. neste exercício final para adormecer, sinto os teus lábios a roubarem-me o mais doce dos morangos. acredito que já estou a dormir. posso abandonar a escrita.