«O seu dia a dia, normalmente uma espécie de alforreca, uma criatura invertebrada e informe, obtivera uma estrutura mesozoica. Avançava, com segurança, até com desenvoltura, em direção a um clímax, tal como numa peça, tal como um dia deveria avançar. Anthony temia o momento em que a espinha dorsal do dia se quebrasse, o momento em que, depois de ter conhecido a rapariga, ter falado com ela e ter acompanhado o seu riso à porta, tivesse de voltar às borras melancólicas de chávenas de chá e à crescente secura das sanduíches que sobrassem.»
«Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.» Rimbaud
quinta-feira, 20 de junho de 2013
segunda-feira, 10 de junho de 2013
segunda-feira, 3 de junho de 2013
a Lua fuma cachimbo
Berlim veio a Lisboa esta noite e
trouxe um último tango protagonizado por Ute Lemper. Repertório clássico da
artista, Last Tango in Berlin pedia um ambiente a meia-luz e um copo de whiskey,
porque como disse Lemper: “o pior inimigo do Tango é o amanhecer”. Pois que
durasse toda a noite, enquanto a Lua fuma o seu cachimbo. Entre Dans Le Port d’Amsterdam
e Ne Me Quitte Pas de Jacques Brel, poemas de Pablo Neruda e outras grandes
performances, foi igualmente recordada Marlene Dietrich. O chapéu, o jeito da
perna, o cachecol de penas, o fingimento do cigarro. Dietrich aqui e ali.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
os livros que devoraram o meu pai
«(...) nós somos feitos de histórias, não é de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias. O meu pai, tenho a certeza, perdeu-se nesse mundo e agora ninguém lhe consegue interromper a leitura. (...) Há inúmeros lugares onde um ser humano se pode perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca. Mesmo um livro solitário é um local capaz de nos fazer errar, capaz de nos fazer perder. Era nisto que eu pensava enquanto me sentava no sótão entre tantos livros.»
Afonso Cruz
terça-feira, 21 de maio de 2013
dois
compro bilhetes para dois, sabendo que te vais sentar ao meu lado no(s) espetáculo(s). vens sempre, penso, não gastei o dinheiro em vão. vens sempre. talvez por vires sempre, sinto mais esta ausência isolada, no meio do sempre
que define a tua presença. já não penso no dinheiro do bilhete, nem pretendo
dá-lo a outra pessoa. vou voltar para casa e guardar na minha mala o dia em que
não vieste, borrifado com a amostra de perfume que me deram na loja.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
é doce
quero fazer, deixa-me fazer. quero sujar e ser senhora da
bagunça. quero rir muito e misturar os ingredientes sem olhar às medidas
certas. quero errar a receita para repeti-la. quero farinha pelo ar e bigodes
de chocolate. quero provar com a ponta do dedo a minha invenção. quero que o
avental fique com as marcas da grande proeza. quero ver o bolo crescer
demasiado, porque pus fermento a mais. quero chegar ao fim, olhar em volta e tentar decifrar o sabor da aprendizagem.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
o perfume do antigo
«Respirava de sala em sala, difundido como um incenso, este odor a biblioteca antiga, que vale por todos os perfumes do mundo.»
Terra dos Homens, Saint-Exupéry
Subscrever:
Mensagens (Atom)





.jpg)
