quarta-feira, 31 de março de 2010

a bola de naftalina dentro do armário


pior do que limpar o pó dos bibelôs um a um, ter que tirar os livros e DVD's todos da estante para cirandar o espanador, passar a ferro roupa com rendilhados, estender na corda as minúsculas e ínfimas peças de roupa íntima, tirar os talheres lavados da máquina da louça e colocá-los cada um na sua categoria da gaveta, coser daqueles botões pequenos de camiseiro, organizar mil folhas soltas que perderam o seu rebalho... só mesmo sentir-me uma agulha no meu próprio sonho.

na nossa vida, às vezes, acabamos por ser não mais do que uma coisa pequenina, a coisa mais chata e insignificante que pode existir. somos a mosca que poisa na nossa própria cabeça.

sábado, 27 de março de 2010

migalha


sou uma migalha do teu pão.
procuro ser a tua migalha preferida.
caí sobre a mesa e sinto-me aterrorizada com a ideia de ser empurrada por uma mão maliciosa para o abismo que é o chão.

quero ser a migalha que permanece sobre a mesa, sem que a maldita limpeza a transporte para a imundície.
quero ser essa migalha afortunada que, estando sempre na tua mesa, no teu lugar, olha para ti e sonha que o pão de onde provém é o melhor que já saboreaste.

um dia a migalha que sou não vai mais estar na tua mesa, mas espero que seja porque a guardaste para ti, porque é, além das suas próprias utopias, a tua migalha preferida.

segunda-feira, 15 de março de 2010

a síntese de um segundo


um instante roubado à fluidez do tempo. uma expressão irrepetível. um flash sobre o acaso deliberado, que capta a felicidade imanente a um corpo.



Fotografia de Henri Cartier Bresson

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

farewell my concubine, Kaige Chen (1993)


Com um enquadramento histórico excepcional -revolução cultural, invasão japonesa...-, este filme chinês consegue uma brilhante história que se desvela em torno de duas personagens centrais: Dieyi e Xiaolou.
Estas duas crianças, que cresceram juntas numa instituição educativa pré-revolucionária, ver-se-ão agrilhoadas pelo então sistema chinês que convencionava toda uma rigidez disciplinar aplicada ao método de ensino. Futuros actores de Ópera Chinesa, Dieyi e Xiaolou não podiam prever o que as suas actuações revelariam: uma passagem da tragédia teatral para o palco da vida real. É no palanque onde a representação decorre que os sentimentos são mais puros, é no camarim que as lágrimas borram a maquilhagem em nome da frustração amorosa, é em tribunal que se perdem as forças perante um julgamento injusto...

Retratando um período política e socialmente atribulado, é um filme para ver e rever, de alcance estético-performativo singular na cultura chinesa. É também um suspiro pela tradicional Ópera Chinesa enquanto marca de uma cultura em decadência, um genuíno Adeus Minha Concubina...


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

os sonhadores


este mundo não é claramente para os sonhadores. as utopias já não caem em terra fértil. o ar está saturado, as mentes tolhidas.

a razão pura tomou posse do trono da fantasia. a liberdade do pensamento vê-se agrilhoada pelos medos de não se corresponder ao "pradrão" das ideias do nosso tempo. as ideias são moda, não se sentem, não são convicções. as ideias são ditados que nos fazem, são frases bonitas que se apanham no ar e se debitam sem saber o que realmente significam.

o mundo está a envelhecer. os sonhadores, esses autores no NOVO, da juventude das ideias, estão presos ao medo da sua voz.


enquanto isso,


vão escrevendo às escuras.

domingo, 24 de janeiro de 2010

lolita


Vladimir Nabokov presenteou-nos com o livro, Kubrick com o filme.
Lolita é um clássico da literatura russa que se evidenciou pelo assunto polémico que alberga no seu enredo: um professor de poesia francesa apaixona-se pela sua enteada de doze anos. a história contém um quê de psicologia erótica, um tanto de noir e um cheirinho a enigma.
Lolita parece suscitar os mais viscerais instintos do homem, com o seu savoir faire inocente e aparentemente inconsciente. é o ser que excita involuntariamente. é um "ups" constante à atenção que canaliza para si.



todas as "meninas" gostam de vestir a inocência quando à sedução se apela. todas queremos ter um pouco de Lolita.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Rear Window


o dia está a surgir. tudo se vê da minha janela: os prédios altos e uniformes onde se reflectem os primeiros raios de sol, as árvores urbanas plantadas nas ruas em estilo de ornamento, os cães que vagueiam como que à procura de um dono na solidão da manhã, os gatos que miam de fome, as crianças a entrarem pelo portão da escola, os velhos a jogarem às cartas e a "deitarem o olho" às raparigas que passam, os carros que se seguem uns aos outros e se copiam nos movimentos: o virar à esquerda, o virar à direita, o parar na passadeira... vêem-se também as paragens de autocarros apinhadas de gente que sabe o que significa a palavra "espera", as esquinas que escondem os namoros apressados, os cafés que se enchem para o primeiro manjar do dia. tudo parece ter um movimento próprio. a dinâmica dos dias é um retrato que se repete à beira da minha janela.

poisou agora um pombo no parapeito. interronpeu a minha contemplação. vou-me embora porque não gosto de pombos. fecho a portada da janela. o dia começou.