Fechei os olhos, tal como pediu.
- Estão fechados? - perguntou. - Não vale espreitar.
- Estão fechados - confirmei.
- Mantém-nos fechados - disse ele. - E não pares agora. Desenha.
(...)
Depois ele disse:
- Acho que já chega. Acho que conseguiste. Dá uma olhada. O que te parece?
Mas eu tinha os olhos fechados. Apeteceu-me continuar assim durante mais um pouco. Achei que era uma coisa que devia fazer.
- Então? - perguntou ele. - Estás a ver?
Ainda tinha os olhos fechados. Estava em minha casa. Sabia isso. Mas não sentia que estivesse dentro de lugar nenhum.
- É extraordinário - respondi.
Catedral, Raymond Carver
«Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.» Rimbaud
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
sábado, 27 de julho de 2013
paisagem invariável
neste lento
fim de tarde
vejo da minha
janela
as luzes que
(também lentamente)
se levantam a
tremer
do outro
lado do rio.
pergunto-me
se são de uma casa
de um
candeeiro de rua
de um
monumento importante
de um barco
de uma
festa.
são o que os
meus olhos pensarem.
penso em
tudo,
menos nas
hipóteses físicas da luz.
são desejos
que pintam a cidade
do outro
lado do rio.
(City Lights, Chaplin)
domingo, 14 de julho de 2013
o gato
essa penugem macia que faz de ti o mais apetecível dos toques desassossega
a vontade, quando não estás por perto. anda,
chega-te aqui. com uma mão no teclado e a outra pousada num dorso quente e delicado,
escrevo em suavidade de consciência. desconheço os caminhos que percorro,
enquanto tento as palavras certas, como a fruta madura que se colhe na época. é difícil encontrar o ponto intermédio entre o verde e o já podre. a frescura
escapa-me. mas com uma mão pousada no teu gracioso dorso, faço, tranquila, a
caminhada entre as árvores. porque é tão agradável escrever, mesmo que não se saiba
ao certo o quê. vejo ali um pêssego que me parece estar bom para colher. vou
correr para ele, mas, entretanto, não saias daqui. não deixes o lugar
literariamente cativo que é o simples estar ao alcance do meu toque.
(Pintura: Pierre-Auguste Renoir)
sábado, 6 de julho de 2013
responsabilidade
derramo calor pelos lençóis acostumados. vem, de longe, percorrer-me
uma aragem de sono. o eco da última frase que hoje li no livro à cabeceira, Memórias de Adriano, ainda
ressoa no espírito: “(…) Sentia-me responsável pela beleza do mundo.” sinto-me assim,
em plano de humanidade com Adriano. não pelo grande desígnio de que se autoinveste
um imperador, mas pela vontade do servo que ainda procura a beleza nos pequenos
canteiros da realidade. todos os dias tento trazer o máximo de flores para te
oferecer, num ato de responsabilidade por assegurar que os teus olhos verão um
pouco da beleza do mundo.
(pintura: Pierre-Auguste Renoir)
quinta-feira, 20 de junho de 2013
melancolia
«O seu dia a dia, normalmente uma espécie de alforreca, uma criatura invertebrada e informe, obtivera uma estrutura mesozoica. Avançava, com segurança, até com desenvoltura, em direção a um clímax, tal como numa peça, tal como um dia deveria avançar. Anthony temia o momento em que a espinha dorsal do dia se quebrasse, o momento em que, depois de ter conhecido a rapariga, ter falado com ela e ter acompanhado o seu riso à porta, tivesse de voltar às borras melancólicas de chávenas de chá e à crescente secura das sanduíches que sobrassem.»
segunda-feira, 10 de junho de 2013
segunda-feira, 3 de junho de 2013
a Lua fuma cachimbo
Berlim veio a Lisboa esta noite e
trouxe um último tango protagonizado por Ute Lemper. Repertório clássico da
artista, Last Tango in Berlin pedia um ambiente a meia-luz e um copo de whiskey,
porque como disse Lemper: “o pior inimigo do Tango é o amanhecer”. Pois que
durasse toda a noite, enquanto a Lua fuma o seu cachimbo. Entre Dans Le Port d’Amsterdam
e Ne Me Quitte Pas de Jacques Brel, poemas de Pablo Neruda e outras grandes
performances, foi igualmente recordada Marlene Dietrich. O chapéu, o jeito da
perna, o cachecol de penas, o fingimento do cigarro. Dietrich aqui e ali.
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