sexta-feira, 4 de novembro de 2011

desenhos para ti




estás no sítio das coisas eternas, eu perdoo-te. envia-me um bocadinho do infinito, em troca eu faço-te um desenho bonito e peço àquela avioneta que to faça chegar.
já não sei desenhar como quando tinha 6 anos. os meus desenhos agora não fazem sentido, são adultos e vazios, as linhas já não têm mistério nem provocam a compulsividade deítica. há qualquer coisa que mudou. o que mudou foi o sentido de verdade. dantes a verdade era uma viagem, agora a verdade adotou o nome morte.


quando conhecemos o verdadeiro sentido desta palavra, não mais desenhamos com a mesma esperança de que o que fizemos vai chegar ao outro lado; não mais gravamos a magia e a inocência nos traços sinuosos e aventureiros que o lápis, feliz servo, percorre na folha branca.





e voltar a ter 6 anos?

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

o que é que escolho: ser ou ser?



a linha entre o que somos e o que devemos ser é muito ténue. umas vezes somos como achamos que devemos ser, como alguém nos disse para ser, e nesse ditado perdemos a referência do nosso verbo. outras, seguros no nosso eixo ontológico, temos a audácia de ser, simplesmente ser, de respirar pela nossa boca, sem atentar ao cumprimento do código da estrada das aparências, e aí somos multados pela nossa péssima condução, que coloca em perigo os outros condutores. todos procuramos a nossa estrada, recta, no deserto, OU, o condutor que não nos apite e aprenda connosco a arte da má condução (e que, respirando pela sua boca, partilhe também um pouco do seu ar).
ambas utopias.

estamos destinados a viver nas trincheiras entre o que somos e o que é suposto sermos. uma guerra sem tréguas.


talvez se vendarmos os olhos nos divertamos mais neste jogo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

almofada




tenho a almofada encharcada dos sonhos que verto, sem querer, sobre ela. sobre ela não, para dentro dela, da sua textura mole que os absorve como uma esponja que lava desinteressadamente a loiça e contacta com a sujidade dos pratos. os meus sonhos são também eles água suja, água que já lavou outros pratos. água que precisa ser renovada, para que não fique retida na almofada e, pela sua pureza possa voltar ao céu e transformar-se na chuva que tudo abençoa.




vou trocar por agora a almofada, e carregar outra de água.


pode ser que esta água venha mais cristalina.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

chá-vena



às vezes é isto mesmo: sou eu e a chávena. a fiel chávena que me beija os lábios cansados e verte o líquido que escorre até ao hipocentro das minhas divagações sísmicas.


às vezes é isto mesmo. e eu gosto assim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

vestir/despir




a linguagem é a minha roupa. se me falta a palavra sinto-me nua.

hoje vesti saia. não era muito curta, porque não gosto de poupar no tecido do verbo; não era muito comprida, porque não gosto que tape demasiado a comunicação directa. não era justa porque não gosto que ela denuncie a forma dos meus pensamentos; não era transparente, porque não gosto que revele os meus segredos.

toda a linguagem pode ser a bandeira ou a máscara de uma ideia. é preciso usá-la com moderação. é este o conselho que te deixo: veste a roupa adequada; não escondas muito a alma, mas também não a ofereças de bandeja. (o que vale para o vestir também vale para o despir: devagar, se faz favor, e não completamente. deixa ao menos a roupa interior, que é como quem diz, a palavra-chave do teu coração. não dês o código: deixa que o descubram).


resgarda-te na linguagem: ela encarrega-se de te ditar aos outros.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

os lindos olhos do Tejo



da minha varanda vejo Lisboa. vejo Lisboa porque vejo o Tejo, o olho azul da cidade que pisca para mim num convite à vida. cada manhã é mais leve ao meu espírito porque sou apanhada nesse piscar de olhos que demora o tempo de um café curto. bom dia é o que digo à chavena vazia; um sorriso é o gesto que devolvo ao azul que me enfeitiça. pensará a vizinha do lado, uma senhora com alguma idade, que tenho estranhos rituais logo pela manhã. "cada um com as suas..." já dizia o outro.


e o outro dizia bem.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

ruf ruf



roçamos na vida uns dos outros como o roçagar do vestido de uma dama do século XVIII. é um ruf ruf constante, mas quase imperceptível, monótono. ela entra no grande salão onde está a corte inteira, "olá" aqui, "olá" ali, ruf ruf aqui ruf ruf ali... não olha a quem dirige as palavras mecânicas e distraídas, roça-as no ouvido, também ele acomodado ao hábito (e por isso desatento), do receptor, que sente uma leve comichão pela natureza sintética do tecido das palavras ligeiras.

assim se fazem as relações: do ruf ruf superficial do vestuário que não nos permite o toque de pele. mais propriamente, do ruf ruf que traja as almas abandonadas.



no século XVIII era assim. alguma coisa mudou?
(vivemos tão apertados nos nossos corpetes)